Relator do processo do mensalão, o ministro Joaquim Barbosa afirmou
nessa segunda-feira, 11, que o empresário Marcos Valério agiu como
"intermediário" entre o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e a
diretoria do Banco Rural. Para o ministro, a instituição financeira -
que fez os empréstimos já considerados fraudulentos pelo Supremo
Tribunal Federal - lavou dinheiro do mensalão. Barbosa apontou
características de crime organizado no esquema, e indicou que vai
defender a condenação generalizada dos réus, inclusive de políticos.
Barbosa considerou nove réus culpados por lavagem: os dirigentes e
ex-dirigentes do Rural Kátia Rabello, José Roberto Salgado e Vinícius
Samarane; Marcos Valério; o ex-advogado dele, Rogério Tolentino; os
antigos sócios nas agências de publicidade Cristiano Paz e Ramon
Hollerbach; e as ex-funcionárias das empresas Simone Vasconcelos e Geiza
Dias. O relator votou pela absolvição de Ayanna Tenório,
ex-vice-presidente do Rural - o plenário a livrou da acusação de gestão
fraudulenta, o que a impede de ser condenada por lavagem.
Com o voto dessa segunda, Barbosa deu início à terceira das sete
fatias do julgamento do mensalão, que trata de lavagem de dinheiro.
Desde o início do julgamento, em 2 de agosto, foram votados as fatias
relacionadas a desvio de recursos públicos e a gestão fraudulenta. Nesta
quarta, 12, o julgamento recomeça com o voto do revisor, Ricardo
Lewandowski.
Na fala dessa segunda, o ministro sustentou que as manobras
realizadas pelo grupo tiveram o objetivo de ocultar os beneficiários das
quantias sacadas e ressaltou que Dirceu teve encontros com diretores do
Rural na época em que o esquema estava em operação. Ao falar sobre
esses encontros, como um jantar de Dirceu e Kátia Rabello em Belo
Horizonte, Barbosa disse que não os vê como "um fato isolado".
"Não se trata de um fato isolado, de meras reuniões entre uma
dirigente de banco e o ministro da Casa Civil, mas de encontros
ocorridos no mesmo contexto em que se verificaram as operações de
lavagem de dinheiro levadas a efeito pelo grupo criminoso apontado na
denúncia", disse. Os ministros Rosa Weber e Marco Aurélio Mello
mencionaram esses encontros antes.
A ex-presidente do Rural disse ter falado com o ex-ministro sobre
o levantamento da liquidação extrajudicial do Banco Mercantil de
Pernambuco, do qual seu banco era acionista. Segundo o Ministério
Público Federal, esse negócio poderia render R$ 1 bilhão ao Rural. O
banco nega irregularidades e sustenta que o processo, concluído este
ano, rendeu R$ 96 milhões.
Operações. Barbosa apontou 46 operações de lavagem de dinheiro
via Rural. "Os saques eram feitos, em geral, por meio de cheques da
SMPB, mas os valores eram entregues a outras pessoas. O Rural, portanto,
mediante procedimento de ocultação e dissimulação, permitia que outras
pessoas sacassem cheques nominais à SMPB."
O relator destacou que o banco não informava aos órgãos de
fiscalização os reais beneficiários e que só a "quadrilha" tinha o real
controle das operações. As transações foram descobertas, observou, após
busca e apreensão autorizada pela Justiça.
"Não há como negar que os réus, em divisão de tarefas próprias de
crime organizado, fraudaram empréstimos, ocultaram bens, informações e
dados, para ocultar proprietários e beneficiários de quantias, como
etapa para a real lavagem de dinheiro", disse.
Fonte: Estadão
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