O deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) do Rio de Janeiro ganhou sucessivas ameaças de morte, a ponto de ter que aceitar um convite da Anistia Internacional e deixar o Brasil com sua família rumo a Europa com endereço desconhecido. E o que ele fez para merecer isso? Em 2008, Freixo presidiu a CPI das Milícias na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), que indiciou mais de 200 pessoas, entre policiais e políticos. Entre seus colegas de Assembleia, suspeita-se, alguns foram eleitos com o apoio das milícias, e esses certamente andam tranquilos, sem ameaças.
Mas, o que levou o deputado Marcelo Freixo a se arriscar tanto? Afinal, existem, em abundância, “justificativas” para, se não se aliar aos bandidos, ao menos não confrontá-los e deixá-los “quietos”. Como se sabe parte da classe política, ou participa dos esquemas ou solenemente faz vistas grossas, por covardia e falta de senso de dever, o que não é o caso em questão.
A atitude de Marcelo vem da identificação com os demais, um sentimento de coletividade que vai além do individualismo mesquinho, transcendente para a noção de pertencimento e quando nos sentimos fazendo parte de um todo maior, assumimos nossa responsabilidade de agir para melhorar a vida dos demais.
Ele tem família, podia pensar na segurança apenas dos seuss, mas foi além, pensou na segurança dos filhos e filhas das outras famílias, especialmente dos filhos e filhas das favelas onde as milícias se disseminam como um câncer já em metástase, posto que se dissemina no ambiente policial e locupleta no já contaminado ambiente político, relações explicitadas no filme Tropa de Elite 2.
Quando da ocupação do complexo do alemão vimos bandidos fugindo desesperada e desorganizadamente, mostrando que o crime não era assim tão organizado. O mesmo não se pode dizer das milícias, compostas de homens treinados pelo estado, muitos com formação em escolas militares, infiltrados no sistema, bem mais perigosos que os traficantes das comunidades que usavam a força bruta e a omissão estatal para dominar as favelas.
São justamente estes poderosos milicianos que Marcelo Freiro ousou denunciar, sem temor, afinal não é só de omissos e corruptos que o cenário político nacional é povoado. É bem verdade que exemplos como esses não são a maioria, mas depende de nós mudarmos isso, e não falo aqui simplesmente selecionar melhor as pessoas em quem iremos votar. É fundamental construir e exercitar em nós a ética que buscamos nos homens públicos. Quando ministrei a cadeira de ética percebi um traço lamentável de nossa cultura.
Nas discussões, todos os alunos defendiam fervorosamente as atitudes éticas, eram contra a corrupção e os demandes que dela provém, mas na hora da prova muitos colavam, ou seja, quando lhes era solicitado o exemplo mais corriqueiro de ética só havia um discurso, mas a prática estava distante, e quando levei o tema à discussão na aula seguinte os argumentos pobres de uns e o desconforto de outros mostrou um verdade incômoda: os políticos são, sem sombra de dúvidas, os nossos representantes, pois, se compramos DVDs e programas de computador piratas, roupas falsificadas, pagamos ao guarda para não levar multa, pegamos recibos falsos para não pagar imposto de renda, somos tão corruptos quanto os corruptos do ambiente político, a diferença é de proporção: só podemos roubar pouco e eles muito.
Se quisermos ter como representantes outros políticos como Marcelo Freixo, que não teme e busca à verdade pelo bem comum, sejamos cidadãos melhores, pois a ética deve começar em nós. Façamos o que é certo mesmo que seja apenas por medo de punição, pois um dia esse valor será interiorizado a um ponto que seja natural em nós o bem que desejamos ver no outro.
herculanopereira.com

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