Thibério Rodrigues e Giovannia Brito
Mais de 800 paraibanos fizeram filas ontem em hospitais da rede pública de saúde e voltaram para casa sem receber atendimentos, sendo metade disso só em João Pessoa, de acordo com estimativas do Sindicato dos Médicos da Paraíba (Simed-PB). Pacientes do Sertão da Paraíba viajaram mais de seis horas e voltaram sem atendimento. Os médicos que realizam atendimentos pelo Sistema Único da Saúde (SUS) na Paraíba e mais 19 estados paralisaram ontem as atividades em protesto contra a baixa remuneração da categoria e as más condições dos serviços públicos de saúde.
A mobilização aconteceu ontem pela manhã com ato público da categoria em frente ao Centro de Ação Integral à Saúde, em Jaguaribe. Segundo Tarcísio Campos, o objetivo da paralisação é chamar atenção das autoridades sobre a situação precária dos serviços do SUS, por falta de financiamento suficiente e desvalorização dos profissionais de saúde. Os médicos defendem a criação de plano de cargos e carreira para os profissionais de saúde.
“A nossa luta é para ‘desprecarizar’ os serviços do SUS, porque faltam condições de trabalho para os profissionais de saúde como um todo, porque isso tem prejudicado a qualidade do nosso trabalho”, disse. Os médicos apontam a falta de remédios e equipamentos de urgência como algumas das dificuldades enfrentadas nos serviços oferecidos pelo SUS.
O Correio publicou no último dia 19 números referentes ao financiamento do SUS em vários estados brasileiros, onde a Paraíba aparece como o estado que recebe o 4º menor repasse para atendimentos hospitalares e ambulatoriais. De acordo com os dados divulgados pelo Conselho Estadual de Saúde com base no Ministério de Saúde, o investimento no Estado é de R$ 622,8 milhões, resultando num financiamento de R$ 181,89 por paraibano que usa os serviços do SUS.
USFs
Segundo o presidente do Conselho Regional de Medicina (CRM), João Medeiros, o problema dos atendimentos no interior não é o salário, pois em alguns municípios pagam até R$ 15 mil para os médicos, mas a falta de estrutura e as distâncias. “A nossa reivindicação pelo plano de carreira é justamente por causa da falta de médico nos PSFs. O profissional ganharia o suficiente para trabalhar oito horas só em um local, mesmo que fosse distante, e depois seria transferido para um local mais próximo”, apontou Tarcísio.
De acordo com o presidente do Simed, a remuneração de um médico do SUS na Paraíba é um dos menores do país. “Os vencimentos básicos na Paraíba são de R$ 1,2 mil”, disse. Segundo ele, os vencimentos em Pernambuco chegam a R$ 3 mil e no Rio Grande do Norte, R$ 4 mil. Com as gratificações, o salário de um médico do SUS na PB fica em torno de R$ 6 mil, de acordo com Tarcísio.
Em Campina, 400 pararam
Campina Grande – Mais de 400 médicos cruzaram os braços ontem em Campina Grande, em protesto contra as atuais condições de assistência prestadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e também pela baixa remuneração paga aos profissionais. A paralisação acabou sobrecarregando o Hospital Regional de Emergência e Trauma Dom Luiz Gonzaga.
“Tivemos um aumento de cerca de 30% nos atendimentos, principalmente, na clínica médica e ortopedia. Começamos a perceber um crescimento na procura desde o início da manhã de ontem, e os profissionais tiveram que se desdobrar para atender a todos”, disse o diretor do Hospital de Trauma, Geraldo Medeiros.
De acordo com o sindicato dos médicos de Campina Grande apenas os serviços de urgência e emergência foram mantidos. “As cirurgias eletivas foram todas suspensas, e serão remarcadas para uma outra data. Os pacientes internados, que passaram por cirurgias, recentemente, fizemos a visita, mas tivemos que paralisar os demais serviços em forma de protesto contra as atuais condições de trabalho”, disse o diretor do Sindicato, Elomar Nascimento.
Segundo ele, além das melhorias, eles querem que haja uma valorização do profissional médico, transparência nas verbas destinadas à saúde, e profissionalização da gestão do SUS. “Isso vai evitar que gestores públicos, sem compromisso com a sociedade, venha a gerir os recursos do Sistema Único de Saúde sem que tenh conhecimento das necessidades da sociedade”, declarou.
Na Capital, frustração
Em João Pessoa, pacientes que procuraram os hospitais Arlinda Marques, Santa Isabel, Ortotrauma e Hospital do Valentina tiveram de voltar para casa sem serem atendidos. Foram paralisadas as atividades nos ambulatórios e suspensas as cirurgias eletivas.
Foi o caso da professora Nanci Nunes, que viajou do município de Princesa Isabel, para ser atendida no hospital Santa Isabel, mas até o final da manhã ainda não havia sido atendida. “Quando cheguei me informaram que a médica não havia chegado e provavelmente não viria por causa da paralisação”, disse.
Assim como ela, o gari Manuel Missílio, foi tirar os pontos de uma cirurgia na perna e teve de voltar para casa. “Cheguei, mas acho que dei viagem perdida porque não vou ser atendido”, afirmou. No hospital Arlinda Marques, a dona de casa Adriana Silva levou o filho para fazer um exame, mas também não foi atendida. “Agora vou ter que voltar outro dia”, disse.
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